
A Ditadura do Trono e o Teste do Rabo In Loco
Há momentos na vida em que somos confrontados com a nossa própria ignorância existencial. O meu momento chegou quando decidi fazer uma simples remodelação na casa de banho.
Até então, na minha mente inocente, uma sanita era apenas um objeto de porcelana branca com uma missão clara, discreta e biológica. Estava redondamente enganada. Entrar numa loja da especialidade foi como cruzar um portal para uma dimensão paralela onde a engenharia sanitária se confunde com a exploração espacial.
Descobri, para meu profundo espanto, que passei horas e dias num labirinto de especificações técnicas que quase exigiam deitar paredes abaixo e levantar o chão. Era o cifão que não tinha a medida certa, a altura que não encaixava, a largura que não cabia... Mas o verdadeiro choque, foi a variedade taxonómica. Há sanitas suspensas, sanitas japonesas, inteligentes, automáticas, com ou sem autoclismo, altas para mobilidade reduzida, baixas para WCs tímidos e modelos futuristas que prometem lavar-nos o rabo com jatos de água aquecida à temperatura exata de uma tarde de primavera em Tóquio.
Para piorar a experiência, os vendedores destas lojas sofrem de um excesso de zelo quase comovente. Sempre solícitos e prestáveis, convidavam-me ao teste supremo: "É melhor sentar-se para ter uma ideia melhor e ver como se sente".
E lá ia eu. Sentei-me em balardiões delas. Sentava-me, levantava-me, voltava a sentar-me. Sentia-me na versão escatológica do conto dos Três Ursos. E o vendedor, com a seriedade de quem calibra um telescópio da NASA, perguntava: "Então, sente-se bem? Muito alta? Muito estreita?". A dada altura, já com o F. a olhar para mim com aquela cara de "esta mulher pirou de vez", a minha paciência esgotou-se. Comecei a responder sem filtros: "Muito pequena para o meu rabo! Ou então muito grande... o que é que está a insinuar com essa pergunta?!". Eu só queria uma sanita para fazer o que é suposto fazer, não queria fazer terapia de casal em cima de loiça sanitária!
Quando finalmente elegemos a grande vencedora e tirámos o cartão de débito para pagar, prontos para levar o trono para casa porque os trolhas entravam na manhã seguinte, surge o grande golpe de teatro da logística portuguesa. O funcionário pergunta a morada para a guia de entrega. O F., estranhando, diz que a levamos connosco. Ao que o senhor responde com a maior desfaçatez: "Ah, mas não temos disponível para entrega imediata... a previsão é de cerca de três semanas".
Quase saltei para o pescoço do homem. Como é que depois de me fazerem passar uma eternidade a testar a ergonomia do meu rabo em público, se esquecem da informação BÁSICA de que não têm o produto em stock?!
O desfecho exigiu uma gincana épica: pesquisar todas as lojas da zona de Lisboa até encontrar uma que tivesse a dita cuja para entrega imediata. Como já era "bué" de tarde, ficou reservada. Coitado do F., teve de se levantar de madrugada, conduzir até aos confins da área metropolitana, carregar a porcelana e voar de volta para receber os senhores das obras.
Hoje, sempre que vou à casa de banho, ainda olho de lado para ela, numa espécie de trégua armada. A birra não dura muito. Afinal de contas, temos de reconhecer: no grande teatro da vida, o trono é a peça mais importante da casa. Se é que me entendem… ☺ ☺ ☺
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