A Paralisia do Play e o Mistério das Pipocas Prematuras

Antigamente, a vida do cinéfilo era simples. Íamos ao videoclube ao sábado à tarde, percorríamos seis prateleiras de cassetes VHS e a escolha estava feita. Havia uma espécie de paz de espírito no facto de as opções serem limitadas. Hoje, na era das plataformas de streaming, entrar na Netflix, na HBO ou na Disney+ tornou-se num teste de resistência psicológica digno de um filme de terror psicológico.

O ritual repete-se quase todas as noites. Chego a casa exausta, mudo para a roupa de andar por casa e preparo um generoso balde de pipocas. Sento-me no sofá com a firme intenção de desfrutar de duas horas de puro entretenimento. Ligo a televisão e abre-se o abismo.

O ecrã saúda-me com um carrossel infinito de categorias: "Tendências", "Porque viu o documentário sobre assassinos em série", "Filmes premiados com finais deprimentes" e a minha favorita, "Comédias para ver à pressa antes de desfalecer de cansaço". E começa a maratona, não da série, mas do zapping.

"Este parece bom", diz o F. "Mas tem nota baixa no IMDb", respondo eu, armada com o telemóvel para validar a aprovação da crítica internacional. Passamos para o próximo. "E este?" "Demasiado violento para uma terça-feira." "E aquela série de que toda a gente fala?" "Tem sete temporadas, não tenho essa estabilidade emocional disponível na minha vida agora."

À medida que os minutos passam, a minha mão avança mecanicamente para o balde. Uma pipoca. Duas pipocas. Um punhado de pipocas. O algoritmo continua a sugerir trailers em modo automático, com uma música dramática de fundo que só serve para elevar a minha ansiedade. Nós continuamos a fazer scroll para baixo, numa descida interminável aos infernos da indecisão digital.

Quando finalmente chegamos a um consenso histórico, digno de um tratado, e decidimos carregar no play… acontece a tragédia. Olho para baixo e o balde está vazio. Consumi metade do meu peso em milho inflacionado e açúcar caramelizado apenas a ver sinopses e a discutir se queríamos ver um drama coreano ou um policial escandinavo. As pipocas morreram na praia, prematuramente, antes sequer de aparecer o genérico do estúdio.

Para piorar a situação, bastam dez minutos do filme escolhido para que os meus olhos comecem a pesar. O F. já ressona levemente ao meu lado e eu percebo que fui, mais uma vez, inundada pelo menu. Desligo a televisão, derrotada pela abundância, a pensar que gastei mais energia a escolher o que ver, do que o realizador a filmar a obra. Amanhã há mais. Mas, por amor de Deus, alguém que invente um botão de "Escolha por mim que eu já não posso mais".

This article was updated on outubro 18, 2026

Olá, eu sou a Ana e este é o meu blog, o Baloiço das Histórias. Sempre gostei de ler e escrever.....e sobretudo de andar de baloiço. Espero que o apreciem tanto quanto eu e desfrutem da leitura. Beijos....

Comentários