Casa Cheia

Sempre fui avessa a paredes carregadas. Gosto de espaço, de respirar, de uma boa parede branca a fazer o seu trabalho de parede branca. Ainda assim, achei que uma ou outra moldura não ficaria mal no quarto, e foi aí que começou o meu erro.

Depois de muito ponderar, decidimos, o Francisco e eu, que o sítio ideal era a parede em frente à cama. A lógica parecia irrepreensível: acordar todas as manhãs com os nossos filhos, ainda pequeninos e fofos, a sorrir-nos das fotografias. Que ternura! Que bela maneira de começar o dia!

Armados de escadote, ferramentas, aspirador, panos e uma parafernália que daria para construir um anexo, lá nos pusemos à obra. Confesso que, a cada furo, ia-me um bocadinho do coração. Uma parede tão branquinha, tão lisinha, e eu ali, cúmplice do atentado. Mede para um lado, nivela para o outro, marca o sítio exato, martelo pneumático numa mão, aspirador na outra, e começou a festa do barulho.

Furar, aspirar, limpar, voltar a aspirar, lavar. No fim, penduraram-se as molduras. Quase todas, que uma ficou de fora, por falta de espaço e porque o Francisco fez finca-pé em não a ver atrás da porta. Recuámos dois passos, de braços cruzados, a contemplar a obra. Somos, sem dúvida, uma equipa formidável. Podíamos ter um programa de bricolage.

O dia passou, a vida seguiu e eu esqueci-me por completo das molduras.

Foi só à noite, já deitada, com a luz apagada e a casa em silêncio, que me ocorreu olhar para a parede. E a parede, ao que parece, olhava para mim. De repente, o meu quarto estava cheio de gente. Uma plateia inteira, calada e atenta, a vigiar cada movimento meu. Uma ajuda a adormecer, não era. Senti uma quantidade de olhos em cima de mim e uns nervos em camadas, como um mil-folhas.

Disse-o ao Francisco, claro, com toda a seriedade e com as minhas mais brilhantes palavras. Ele riu-se até às lágrimas. Eu não vi graça nenhuma.

Acabei por adormecer, vá lá, vencida pelo cansaço. Mas a vitória durou pouco. De manhã, mal abri os olhos, dei de caras com aquela multidão toda, e o berro que soltei acordou a casa inteira, vizinhos incluídos, se bem me parece.

Entretanto, já fiz as pazes com a população residente. Passámos a coabitar com uma certa cordialidade, e já ninguém se assusta. Mas fiquem a saber: não penduro mais nada neste quarto. Nem um postal, nem um calendário, nem um desenhinho de infantário.

Não penduro mesmo…..!

This article was updated on outubro 25, 2026

Olá, eu sou a Ana e este é o meu blog, o Baloiço das Histórias. Sempre gostei de ler e escrever.....e sobretudo de andar de baloiço. Espero que o apreciem tanto quanto eu e desfrutem da leitura. Beijos....

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