
O Inimigo Público número UM
Confesso já, sem rodeios e com o coração nas mãos: há uma coisa no Natal de que eu não consigo gostar. Nem um bocadinho. Dá-me arrepios.
Não, não é o trânsito, nem as filas nos centros comerciais, nem a dieta que se promete em Janeiro e se esquece em Dezembro. É ele, o boneco de gengibre. Essa figurinha sorridente, de braços abertos e olhos de botão, que toda a gente adora e que eu, desgraçadamente, não consigo olhar nos olhos.
Num mundo cheio de gente que se derrete com ele, ser a única a torcer o nariz tem consequências. Lá em casa, a minha aversão é motivo de grande entretenimento. Onde quer que o famigerado apareça, ouço logo a gargalhada geral dos meus filhos, que me apontam o dedo com um brilho maldoso nos olhos:
— Olha, mãe, tão giro! O teu boneco preferido!
Ah! Ah! Ah! Muito engraçado. Camadas de nervos, é o que é.
A coisa vem de longe. Basta lembrar os filmes do Shrek, onde o dito cujo aparece em grande plano e, pior ainda, numa versão gigante, a caminhar pela cidade como se fosse o dono. Que suplício! Sentei-me no sofá, de almofada pronta a cobrir a cara, a contar os minutos até acabar a cena. À minha volta, o resto da família a rebolar de riso. Só eu, ao que parece, não achei a menor graça. Para ser sincera, ainda hoje não achei.
Mas o pior, o verdadeiramente insuportável, é que este ano ele anda a perseguir-me. Entro numa loja para ver as novidades de Natal, na maior inocência, e lá está ele. Nas almofadas. Nas canecas. Nos peluches. Nas bolas de decoração. Nas taças, nos pratos, nas travessas. Em mais canecas, que parece que não chegam. Socorro! Não há fuga possível. Dou por mim a desviar o olhar, a andar de lado, a fingir interesse por uma prateleira de velas só para não dar de caras com aquele sorriso fixo. Só me apetece sair a gritar, de mãos no ar, como nos desenhos animados.
E se pensam que nos mercados de Natal me safo, desenganem-se. Lá está ele, em todas as bancas, em todas as versões imagináveis, a vigiar a multidão. De todas, a pior das piores, sem sombra de dúvida, é a comestível. Ver um boneco de gengibre ser mordido, com aquele ar impávido, a cabeça a desaparecer à dentada, é um espetáculo que prefiro dispensar. Há coisas que uma pessoa não deve ver antes do chocolate quente.
Mas há um pormenor curioso, ou talvez não. A minha filha, que adora bolos de gengibre e se atira a eles com entusiasmo, não é grande fã de comer o boneco em si. Come o bolo, claro, mas perante a figurinha pára, olha, hesita e acaba por deixá-lo de lado. Fico a pensar se não lhe terei passado, sem querer, um bocadinho desta minha aversão, em versão culinária. Se calhar é a herança que lhe fica de mim, entre os olhos azuis e o mau feitio ao acordar.
Pois bem, o Natal está a chegar, e o boneco com ele. Vai estar nas lojas, nos mercados, nas montras e, muito provavelmente, na mesa. Eu cá vou preparada. Se me virem a sair a correr de uma loja, de mãos no ar, já sabem de quem se trata e porquê.
Boas festas a todos. Menos a ele.
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