
Mãe Natal
Sou, confesso, a fã número um do Natal. Adoro as luzes, a música, o cheiro a canela, a azáfama, o embrulhar das prendas às escondidas, tudo. Mas há uma coisa que o tempo me trouxe e que não pedi: deixei de acreditar no Pai Natal e passei a ser eu a Mãe Natal. Uma promoção profissional que nunca solicitei, sem aumento de ordenado e com horas extraordinárias na noite de vinte e quatro.
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu era a pequena crente, a que ia para a cama na véspera de Natal sem pregar olho, a ouvir passos no telhado.
Naquela altura, levava o assunto muito a sério. Colocava todos os meus sapatos debaixo da chaminé, todos mesmo, não fosse faltar-lhe algum par para encher. E, como a vida é feita de riscos calculados, nem me ficava pela chaminé da lareira. Punha também sapatos debaixo da chaminé do fogão. Afinal, quem me garantia por onde o senhor de barbas brancas ia descer? Tratava-se de um homem de idade, com muito trabalho, e eu não podia arriscar que se enganasse no caminho e, por minha culpa, o meu Natal ficasse em branco. Hoje chamar-se-ia a isto gestão de risco.
O meu Pai Natal, porém, tinha uma particularidade que me deixava apreensiva: além de prendas, deixava cenouras. E a quantidade, ai de mim, variava consoante os disparates cometidos ao longo do ano.
Ora, eu nunca fui propriamente um anjinho. Volta e meia lá vinha uma travessura, que na hora era coisa de somenos e que depois se esquecia, tal como se esquecem as promessas de ano novo. Só em Dezembro é que as memórias regressavam, de repente, e começava a contabilidade apressada: a jarra, o berro, a mentira pequenina, a sopa deixada no prato. Somava, subtraía, arredondava para baixo, e tentava calcular, mais ou menos, quantas cenouras me esperavam. Nenhum contabilista fez tanto esforço pela verdade fiscal.
Num certo ano, acordei cedíssimo, com o coração aos pulos, e voei para a chaminé da lareira. E que alegria! Os sapatos estavam cheios de prendas e, melhor ainda, não havia sinal de uma única cenoura! Foi a loucura. Comecei a dançar pela casa, aos saltinhos, de braços no ar, numa felicidade tão grande que já não cabia em mim. Tinha-me safado! O Pai Natal, afinal, tinha-me achado um modelo de virtude.
Foi nessa altura que a minha mãe, com a voz mais inocente do mundo, me disse:
— Acho que te esqueceste de ir à chaminé da cozinha…
Fui a correr. E, quando parei, nem queria acreditar nos meus olhos. Lá estava ela, à minha espera, uma cenoura. Mas que cenoura! Tão grande, tão grande, que nem cabia nas minhas botas. Era uma cenoura com personalidade, com presença, uma cenoura que se fazia notar à distância.
Quase morri de desgosto, claro. Tinha-me portado mesmo mal, e agora ficava provado, preto no branco, ou melhor, laranja no cinzento. O Pai Natal tinha sido generoso nas prendas, mas nas cenouras também. Não havia volta a dar, nem argumentos a apresentar. Fiquei ali especada, a olhar para o legume e a repassar mentalmente o ano inteiro, à procura da falha que me tivesse escapado na contabilidade.
Mais tarde, a minha mãe lá me contou o segredo, com um sorriso daqueles que só as mães sabem fazer: tinham andado a correr tudo à procura da maior cenoura que existia, só para me pregarem aquela partida. Imagino o cenário: os meus pais a apalpar hortaliça, a comparar tamanhos, a perguntar ao vendedor se não tinha uma maior. Há famílias que investem em seguros de vida e há outras que investem em cenouras.
Escusado será dizer que, no ano seguinte, fui uma verdadeira santa. Santa, santíssima, de auréola e tudo. Ninguém me apanhava em falso, nem de sapatos mal arrumados.
Hoje, que sou eu a Mãe Natal, olho para as chaminés lá de casa e sorrio. Ainda não decidi se vou aplicar a técnica da cenoura gigante, mas uma coisa garanto: se for preciso, já sei onde se encontram as melhores.
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